
As ondas de calor devem ganhar ainda mais intensidade no Brasil com a chegada de um novo El Niño, segundo especialistas reunidos nesta terça-feira (11), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O fenômeno climático pode elevar as temperaturas e agravar condições já associadas à seca, aos incêndios e aos impactos sobre a saúde da população.
A professora Renata Libonati, do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e integrante de um comitê de especialistas da Organização Meteorológica Mundial (OMM), afirmou que as ondas de calor ainda recebem atenção insuficiente no país. Segundo dados analisados pela pesquisadora, cerca de 50 mil mortes relacionadas ao calor foram registradas entre 2000 e 2020 em 14 regiões metropolitanas brasileiras.
Os efeitos do fenômeno não devem se limitar às temperaturas elevadas. De acordo com Renata, períodos de El Niño também podem favorecer a combinação entre calor extremo, estiagem e incêndios. Nas últimas quatro décadas, as condições de alto risco de fogo aumentaram cerca de 18% durante anos de El Niño nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, segundo os dados apresentados pela pesquisadora.
Os impactos, no entanto, tendem a variar de acordo com a região do país. O pesquisador José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explicou que o Sul pode registrar aumento das chuvas e, consequentemente, maior risco de enchentes. Já Norte e Nordeste podem enfrentar redução das precipitações e maior possibilidade de seca. No Centro-Oeste, a previsão inclui atraso no período chuvoso e mais episódios de calor, enquanto o Sudeste pode ter temperaturas elevadas e chuvas mais irregulares.
Para os especialistas, o cenário reforça a necessidade de ampliar a preparação para eventos climáticos extremos. Paulo Artaxo, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e integrante de relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), afirmou que o Brasil já enfrenta um processo de aquecimento e precisa acelerar medidas de adaptação.
Além dos efeitos sobre a saúde, os pesquisadores alertam para possíveis impactos na produção de alimentos, no transporte, no fornecimento de energia e na economia. A preocupação também envolve as desigualdades sociais, já que populações em situação de maior vulnerabilidade tendem a ter menos condições de se proteger durante períodos de calor extremo e outros eventos climáticos.
O alerta dos especialistas ocorre em meio à expectativa de temperaturas excepcionalmente altas em 2026. Para eles, experiências recentes com enchentes, secas, incêndios e ondas de calor reforçam a necessidade de planejamento antecipado para reduzir os impactos de um cenário climático cada vez mais marcado por eventos extremos.