
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) apresentou o relatório final sobre a queda do avião da Voepass ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP), tragédia que vitimou 62 pessoas. O documento conclui que o acidente resultou de uma combinação de falhas operacionais e de manutenção da companhia aérea, erros de conduta da tripulação e deficiências no processo de fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Segundo as investigações, a aeronave ATR 72-500 não poderia ter decolado de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP) devido a uma pane não solucionada no limpador de para-brisa. Pelas normas da aviação, a presença desse defeito proibia o despacho em horários com previsão de chuva no trajeto ou no destino. Durante o voo, o turboélice enfrentou entre 8 e 10 minutos de condições meteorológicas severas para formação de gelo.
O relatório apontou que a aeronave registrava 10 itens com falhas antes de iniciar a operação, incluindo problemas no sistema responsável por remover o acúmulo de gelo da asa direita. De acordo com o órgão investigador, a Voepass mantinha uma cultura de “normalização de desvios”, na qual mecânicos e pilotos praticavam reportes informais ou deixavam de registrar panes no diário de bordo para evitar a paralisação preventiva dos aviões.
Alertas ignorados e erros de pilotagem
Apesar de o sistema de monitoramento ter emitido ao menos oito avisos de velocidade baixa e alertas de perda de desempenho, a tripulação não executou os procedimentos de emergência previstos. As gravações revelaram que conversas sobre assuntos pessoais entre os pilotos desviaram a atenção necessária para o monitoramento contínuo dos instrumentos e para a identificação do acúmulo severo de gelo nas asas.
Ao entrar em estado de estol (perda da sustentação aerodinâmica), o copiloto agiu de forma contrária aos manuais de instrução da fabricante ao puxar o manche em vez de empurrá-lo. O movimento incorreto impediu a recuperação do controle da aeronave, que entrou em parafuso chato e completou cinco voltas sobre o próprio eixo durante uma descida acelerada a 14 mil pés por minuto até o impacto com o solo.
A investigação indicou ainda que auditorias prévias realizadas pela Anac já haviam identificado não conformidades na manutenção e na rastreabilidade de peças da Voepass. Contudo, as ações de vigilância do órgão regulador não foram suficientes para mitigar os riscos ou paralisar operações em níveis degradados de segurança. O Cenipa ressaltou não se recordar de outro caso recente em que a atuação da agência tenha figurado como fator contribuinte para um acidente.
Recomendações e posicionamento das empresas
Para evitar novos acidentes, o Cenipa emitiu recomendações à agência europeia EASA dirigidas à fabricante ATR. Las orientações incluem a revisão dos alertas de degradação de performance para exigir ação imediata dos pilotos, o aprimoramento das regras de voo em condições severas de gelo, a reavaliação dos sistemas de monitoramento e a inclusão de novos parâmetros de gravação nas caixas-pretas.
À Anac, o relatório recomendou a atualização urgente dos processos internos de fiscalização, a verificação do cumprimento de procedimentos de ajuste de velocidade pelas companhias que operam o modelo ATR no Brasil e a melhoria na comunicação de perigos meteorológicos entre aeronaves e equipes em solo. O resultado final da investigação também deverá ser amplamente divulgado entre a comunidade aeronáutica para conscientização dos tripulantes.
Em resposta ao documento, a Anac informou que analisará todas as recomendações do relatório no prazo de até 120 dias. Por sua vez, a Voepass declarou que o acidente foi o episódio mais difícil de sua história e reafirmou solidariedade às famílias das vítimas. A companhia destacou possuir certificação internacional de segurança (IOSA) e defendeu que a tripulação era experiente, capacitada e com exames de saúde em dia.
As conclusões apresentadas pelo órgão da Força Aérea Brasileira buscam oferecer respostas conclusivas à sociedade e servir de base para reformas estruturais na aviação civil nacional. O encerramento do relatório técnico transfere o foco para a implementação rápida das medidas corretivas recomendadas, visando impedir a repetição das falhas operacionais e institucionais identificadas na tragédia.









