Paquistão e Afeganistão entram em guerra aberta após bombardeios a Cabul e retaliação com drones

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O sul da Ásia amanheceu sob o som de explosões e comunicados militares. Após declarar “guerra aberta” ao Afeganistão, o governo do Paquistão lançou bombardeios contra alvos em Cabul e outras cidades estratégicas, inaugurando o mais grave confronto direto entre os dois países desde o retorno do Talibã ao poder, em 2021.

Segundo o Exército paquistanês, a operação atingiu 22 alvos considerados instalações militares do Talibã na capital afegã, além de posições em Kandahar e na província de Paktia. Islamabad afirma que 12 soldados paquistaneses morreram em confrontos recentes na fronteira e sustenta ter eliminado 274 integrantes do regime afegão — números que não foram confirmados por Cabul.

O Talibã reagiu poucas horas depois. De acordo com autoridades afegãs, drones foram utilizados para atingir instalações militares em Islamabad e em cidades como Nowshera, Jamrud e Abbottabad. A retaliação marca uma mudança qualitativa no conflito: pela primeira vez, o confronto deixa de ser predominantemente fronteiriço e passa a atingir centros estratégicos de ambos os países.

A escalada encerra, na prática, o frágil cessar-fogo firmado em outubro. O Paquistão acusa Cabul de permitir que militantes do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP) operem a partir de território afegão. O governo do Talibã nega e contra-acusa Islamabad de tolerar grupos hostis ao regime afegão.

O pano de fundo é geopolítico. Historicamente aliado do Talibã desde os anos 1990, o Paquistão via no Afeganistão uma zona de influência estratégica frente à Índia. Nos últimos anos, porém, a aproximação diplomática de Cabul com Nova Déli e o avanço de grupos insurgentes na fronteira deterioraram a confiança entre os vizinhos.

A dimensão do risco preocupa potências regionais. O Irã ofereceu-se para facilitar o diálogo, enquanto a China pediu moderação e um cessar-fogo imediato. O temor é que o confronto bilateral se transforme em foco de instabilidade mais amplo, envolvendo rotas comerciais estratégicas, disputas energéticas e a já delicada equação nuclear do sul asiático — o Paquistão é potência atômica declarada.

A continuidade das operações militares pode redefinir o equilíbrio de forças na região. Se mantida a ofensiva aérea paquistanesa e a capacidade de resposta por drones do Talibã, o conflito tende a migrar de escaramuças localizadas para uma guerra de desgaste com impactos humanitários e diplomáticos significativos.